Bastidores de "O Agente Secreto": A Arte de Recriar o Passado na Capital Federal

Participar de uma produção cinematográfica é sempre um desafio, mas quando falamos de um filme de Kleber Mendonça Filho, que recebeu 4 indicações ao Oscar-2026, a responsabilidade ganha outra escala. O Longa Concorreu nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme internacional, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator (Wagner Moura).

Olhando para trás, sinto um orgulho imenso de ter trabalhado como Contrarregra e Cenotécnico durante as filmagens em Brasília, realizadas em 2024. Hoje, com o filme ganhando o mundo, quero compartilhar com vocês o processo minucioso de dar vida aos anos 70/80 no Setor Comercial Sul (SCS).

O Desafio do Orelhão: Do Papel à Realidade

Foto: Mika Martins/Arquivo Pessoal
Um dos elementos mais icônicos da cenografia deste projeto foi o orelhão. Como não tínhamos disponível um aparelho original idêntico aos da época para as gravações, a solução passou pela utilização de uma réplica de madeira. No entanto, havia um detalhe crucial para a veracidade da cena: o ator precisava interagir com o aparelho, inserindo as fichas telefônicas.

A réplica não possuía o mecanismo de entrada de fichas. Foi aqui que o meu trabalho de Cenotecnia entrou em ação. Tive de moldar manualmente em madeira a peça onde as fichas eram inseridas — o popular "bocal" ou entrada de fichas.
Foto: Didi Colorado/Arquivo Pessoal

O processo foi minucioso:

Foto: Mika Martins/Arquivo Pessoal

1-Modelagem: Esculpir a peça em madeira para que tivesse o aspecto metálico e funcional do bocal original.
Foto: Mika Martins/Arquivo Pessoal

2-Adaptação Técnica: Tivemos de desmontar e montar novamente o telefone interno para integrar o novo bocal.
Foto: Mika Martins/Arquivo Pessoal

3-Funcionalidade: O resultado permitiu que o ator fizesse a cena com total naturalidade, colocando a ficha no momento da ligação, exatamente como se fazia antigamente.
Foto: Didi Colorado/Arquivo Pessoal

Uma Viagem no Tempo no Setor Comercial Sul

Além do orelhão, a transformação de Brasília em 2024 foi impressionante. O Setor Comercial Sul serviu de palco para uma verdadeira volta ao passado. Parte do meu trabalho envolveu a caracterização dos veículos de época que compunham o cenário.

Para garantir a precisão histórica, substituímos as placas atuais dos carros (como Fuscas e Brasílias) pelas antigas placas amarelas, compostas por duas letras e quatro números. São estes pequenos detalhes que, somados, constroem a atmosfera de imersão que o cinema exige.

Foto: Nelminha/Arquivo Pessoal

Reconhecimento e Orgulho
Ver esse esforço coletivo ser citado em veículos como o G1 e saber que a cenografia brasiliense brilhou em uma obra que alcançou o Oscar-2026, é extremamente gratificante. Gostaria de destacar a parceria com a diretora de arte Didi Colado, que me convidou para integrar sua equipe em 2024. A confiança dela no meu profissionalismo para cuidar desses detalhes técnicos foi fundamental para entregarmos um set impecável.
Foto: Reprodução/g1 e Redes Sociais

O cinema é feito de ilusão, mas a construção dessa ilusão exige técnica, paciência e muita dedicação manual. Trabalhar sob o olhar atento da Didi foi uma experiência de grande aprendizado, onde cada detalhe — do bocal de um telefone à placa de um carro — ajudou a contar essa história.



O que mais gostariam de saber sobre a rotina em um set de filmagem?